Soneto do Amigo, de Vinícius de Moraes

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica…

 

Vinícius de Moraes foi um poeta, dramaturgo, cantor e compositor brasileiro, jornalista e diplomata. Autor de vários livros, poemas e canções. Livros como O caminho para a distância. Forma e exegese, Novos poemas, Antologia poética, Para viver um grande amor dentre outros.

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O brilho do olhar, de Nida Chalegre

Fortaleza?
Todos pensam que sou
que passo pelos problemas
com uma energia nata
com um sorriso nos lábios
com a alma intacta
mantendo o brilho no olhar
Nem pensam

imaginam sequer

que no escondido [AA1] do lar

na intimidade do quarto

ou na direção isolada do carro

a dor se transforma em lágrimas

vigorosas

pujantes

tão grandes

que parece que vão me afogar

São breves

não duram muito

fica apenas um gosto amargo

meu ser interno aliviado

os olhos lubrificados

e preparados para

em outra ocasião

mais lágrimas brotar

e justificar

aquele brilho no olhar!

 

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O livro, de Júlio Cezar dos Reis Almeida

_ Aprendi a conversar, lendo.
O livro estabelece
Diálogo fácil e franco.

_ Aprendi a ouvir, lendo.
O livro fala a cada frase;
Sua voz educa a mente
E amadurece os sentidos.

_ Aprendi o valor da boa companhia, lendo.
O livro faz brotar
O real sentido do companheirismo.
A verdadeira amizade!

_ Aprendi sobre o outro, lendo.
O livro revela
O universo particular do ser humano.

_ Aprendi sobre mim mesmo, lendo.
O livro nos remete a nós mesmos.
E este é o grande encontro da existência.

_ O livro é um dos mais belos pontos de encontro.

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Há certas horas…

Há certas horas, em que não precisamos de um Amor…
Não precisamos da paixão desmedida…
Não queremos beijo na boca…
E nem corpos a se encontrar na maciez de uma cama…

Há certas horas, que só queremos a mão no ombro,

o abraço apertado ou mesmo o estar ali, quietinho, ao lado…
Sem nada dizer…

Há certas horas, quando sentimos que estamos pra chorar, que desejamos uma presença amiga, a nos ouvir paciente, a brincar com a gente, a nos fazer sorrir…

Alguém que ria de nossas piadas sem graça…
Que ache nossas tristezas as maiores do mundo…
Que nos teça elogios sem fim…
E que apesar de todas essas mentiras úteis, nos seja de uma sinceridade inquestionável…
Que nos mande calar a boca ou nos evite um gesto impensado…

Alguém que nos possa dizer:
Acho que você está errado, mas estou do seu lado…
Ou alguém que apenas diga:
Sou seu amor! E estou Aqui!
Nos meus passeios pela internet, de William Shakespeare

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Amar e não amar, de Julio Cezar dos R. Almeida

Amei e não amei
Bate baixinho o coração.

Amei… Amei em vão!
Não amei… Só me poupei de desilusão…

Amei e não amei…
Bate descompensado o coração…

Será que fiz bem… Não sei não!
Amar traz tanto desassosego…
Não amar só traz solidão…

Amei e não amei…
Canta o trem quanto chega à estação…

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Poema, de Cecília Meirelles

Renova-te. 

Renasce em ti mesmo. 

Multiplica os teus olhos para veres mais. 

Multiplica os teus braços para semeares tudo. 

Destrói os olhos que tiveram visto. 

Cria outros, para as visões novas. 

Destrói os braços que tiveram semeado. 

Para se esquecerem de colher. 

Sê sempre o mesmo Sempre outro. 

Mas sempre alto.

Sempre longe. 

E dentro de tudo. 

 

Poema retirado da obra Cânticos de Cecília Meirelles.

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Lição – Julio Cezar dos Reis Almeida

O menino estuda a lição,
Dividido entre o que aprende
E os sons da rua que lhes chegam pela janela.

A mãe faz tricô.
A vó cochila na cadeira de balanço.
O menino olha a rua.
A rua irresistível que o chama…

Mamãe! Posso brincar?
Agora, não! Primeiro termine a lição.
Terminei a lição.
Mamãe não faz tricô.
Vovó não cochila.

Fecho a janela para que o barulho da rua
Não acorde as duas que dormem
No tempo estático das lembranças.

Mamãe, terminei!
Vá brincar, mas não demore!
O tempo passou,
Mas as lições da existência permanecem inconclusas.

Hoje me pergunto:

Onde estão as plantas da minha vó?
Os canteiros estão desfeitos.
Onde estão os novelos de minha mãe?
A lã da existência acabou,
Mas deixou o amargo gosto do sol da saudade
Que teima em brilhar nas lembranças.

Se a lã do tempo tece o próprio novelo,
A lição da ausência
Aprende-se com nó na garganta

Júlio Cézar dos R. Almeida é administrador, poeta e escritor. Autor de vários livros incluindo: Cecilianos, Adolescência, Raso.

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Linguagens, de Dora Ramos

Meu coração
não entende a linguagem
que explica,
e calcula,
e conclui.

Meu coração

só entende palavras
que dizem
o quanto me satisfazes!

Meu coração ignora

outros nomes
que tu repetes
pois ele sabe
que nenhum outro nome
te amará assim.

E quando tudo isso

tu perceberes
chamarás pelo meu nome sim!

Meu coração não se engana:

completas tu a mim
completas eu a ti!

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